Blog Mil Estrelas no Colo

13-10-2012 07:37

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«Conheci a Valentina através de uma entrevista que esta deu para o Diário, fiquei curiosa dada a sua história e fui à procura dos seus livros. As sinopses deixaram-me muito curiosa já que são do género que eu aprecio. Entrei em contacto com esta jovem escritora que tal como eu é da Ilha da Madeira. Muito simpática acedeu responder a algumas perguntas para publicar aqui no blogue. Penso também que esta entrevista irá agradar a várias pessoas inclusive os recentes escritores que tanto lutam por verem os seus trabalhos publicados e reconhecidos.

Mais uma vez obrigada e muito sucesso. Espero ler os teus livros num futuro próximo!

 

1 – Fale-nos um pouco de si, de como é e do que mais gosta de fazer.
Bom, antes de mais, gostaria de agradecer ao Mil Estelas no Colo pelo convite e cumprimentar a Sandra e todos os leitores. Sou a Valentina, tenho 23 anos, nasci e vivo no Funchal. Licenciei-me e concluí o mestrado na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Sou tímida, porém, espontânea; alegre 99% dos meus dias; teimosa no que convém mas, também, no que não convém. Aprecio a arte em geral. Devoro livros. Sou fã de Vladimir Nabokov, José Saramago, Lovecraft, Edgar Allan Pöe, Stephen King, Carlos Ruiz Zafón e Nelson Rodrigues. Tiro inspiração das pequenas coisas da vida e de génios – na minha opinião – como Woody Allan, Pedro Almodóvar e Lars Von Trier. Oiço repetidamente e, principalmente quando escrevo, Guns n’ Roses, Blind Melon, Kings of Leon, Snow Patrol e músicas que encontro por felicidade do acaso mas acabo por não decorar títulos ou cantores. Não gosto de discotecas, de arraiais nem da maior parte das coisas que atrai a maioria dos jovens da minha idade. Prefiro uma esplanada e um livro, o sossego do meu quarto e a criação de histórias, um filme e pipocas, um documentário e um chá. Dizem que sou estranha por conta disso. Talvez. Adoro o mundo da criminologia, do profiling criminal e das ciências forenses. Ultimamente é só sobre isso que leio. Amo escrever. Mas creio que isso já seria de esperar :)

2 – Porque a decisão de publicar no Brasil e não em Portugal?
Não foi uma decisão. Foi o destino. Comecei à procura de editoras aos 19 anos, quando concluí o Distúrbio. Por essa altura, também dei os primeiros passos no mundo dos concursos literários. Nunca obtive um retorno positivo. As poucas editoras que me responderam – creio que apenas duas – disseram que o livro não se enquadrava no género que publicavam ou, então, cobraram-me valores altíssimos para publicação. Confesso que tentei pouco. Não andei de porta em porta nem levei as mãos à cabeça. Achei que se não queriam ou que se pediam dinheiro em troca de publicação eu não deveria corresponder à expectativas de um leitor. Por isso, sosseguei mas continuei a escrever. Certo dia, andava a pesquisar concursos literários e, a meio de tantos links, encontrei uma editora brasileira – a Estronho – que abria submissão de textos a um certo número de autores para integrarem uma antologia. Li o regulamento de uma ponta a outra.
A editora não cobrava qualquer custo ao autor selecionado; a antologia era aberta a pessoas de qualquer nacionalidade e todo o cenário e tema deixaram-me completamente interessada. Escrevi o conto e enviei, sem qualquer esperança. Em Janeiro de 2011, recebo um e-mail a dizer que tinha sido selecionada. Fiquei felicíssima. Entretanto, a editora abriu outros concursos e eu fui participando até ao dia em que o Marcelo Amado, editor da Estronho, perguntou se eu não teria nenhum original. Eu respondi que sim, enviei o Distúrbio e, pouco tempo depois, ele disse que queria publicar o livro. Da minha parte, foi amor à primeira vista em relação à editora. Tudo neles vai de acordo com aquilo que eu sempre sonhei enquanto autora publicada: são pessoas que gostam do que fazem, que nos tratam por igual, que conversam e dão as suas opiniões sem deixar de ouvir o lado do autor. A Estronho é a minha alma gémea no mundo dos livros ehehe.

3 – Pode falar-nos de como foi esse processo de escolha da editora e como é que tudo surgiu?
Ups, acho que falei de mais na resposta anterior. Pronto, já está respondido :)

4 – Sei que vai agora ao Brasil apresentar o seu segundo livro. Que expectativas tem acerca desta viagem?
Decidi ir ao Brasil em Fevereiro, se não estou em erro. A minha ideia nem era ir lançar o livro que, na altura, já tinha sido aprovado mas, sim, conhecer o Marcelo e a Celly (editora do Selo Fantas, da Estronho) e todos os outros autores com quem compartilho páginas em várias antologias. Ao conversar com os meus editores, todo um mundo de eventos foi idealizado por eles. De repente, eu já não ia apenas a Belo Horizonte, sede da Editora. Eles encaixaram São Paulo e Curitiba no percurso e uns tantos eventos em que vou participar. Uma coisa que já era grande – o ir para um país desconhecido – tornou-se, sem dúvida, naquela que será a viagem da minha vida. Estou muito ansiosa e feliz por ir. A melhor consequência será estar perto dos leitores e colegas que me incentivam diariamente. Voltarei carregada de boas experiências e livros.

5 – Tem uma rotina de escrita e um horário favorito?
Tento escrever todos os dias porque sei que o treino é o melhor aliado de um escritor. Sei isso por experiência própria. Antes, apenas escrevia quando sentia aquele apelo, quase divino, para escrever. Percebi que a fórmula não estava a resultar e que o progresso era pouco. Passei a escrever todos os dias. Mesmo quando não me apetecia, estava doente ou o tempo era escasso. Não escrevo folhas inteiras todos os dias. Às vezes fico-me, apenas, por uma frase ou outra que me vem à cabeça e aponto num caderno. Prefiro escrever de manhã, bem cedo. De barriga cheia, de preferência :)

6 – Quando começa a escrever já tem tudo planeado ou a história vai surgindo aos poucos?
Quando escrevo um romance, toda a história já está previamente delineado. Demoro algum tempo a esquematizar capítulos, a fazer pesquisas, a escolher nomes, locais, personalidades. Apenas quando esse trabalho está feito é que começo a escrita. Claro que, muitas vezes, a ação muda pelo meio, acrescento coisas e apago outras. Mas o principal está lá. Já em relação aos contos, se for para uma antologia ou para um concurso com tema definido, penso na ideia e vou escrevendo. Quando quero escrever por diversão, começo sem qualquer história pensada. Deixo a cabeça e os dedos no teclado dançarem ao sabor da minha disposição.

7 – Qual o género que mais gosta de escrever?
Gosto, sobretudo, de escrever sobre temas que façam as pessoas pensar. O drama “Distúrbio” aborda a pedofilia, os maus tratos e a negligência infantis. Tenho alguns contos que também vincam esses assuntos, como “Chora, Mia, chora” (antologia VII Demónios – Inveja) e o “Condenado” (antologia VII Demónios – Gula), entre outros que ainda vão ser lançados. “A Morte é uma Serial Killer” é suspense e entra na cabeça dos assassinos em série e dos problemas que, muitas vezes, estão por detrás das suas mentes sombrias. Não é que eu os tente desculpar – acho que a caracterização que fiz de cada um deles não deixa isso ser possível – mas quis mostrar, em parte, o outro lado; o lado em que eles também são vítimas. Adoro escrever erotismo. Concluí, há pouco tempo, um romance intitulado “Origami” que se passa na Inglaterra de 1900 e mistura a paixão pela literatura com a paixão dos corpos. No mesmo género, venci no passado dia 25 de Setembro, em Paris, o Concurso de Contos Nelson Rodrigues, organizado pela Unesco, com o conto “Viúva fora do quarto”. Terror e fantasia são, também, preferências.

8 – Fale um pouco dos seus livros e como é que estas histórias surgiram.
O “Distúrbio” foi escrito numa época em que eu me desapaixonava pela licenciatura em Direito. Percebia que o sistema era uma máquina, que ali não havia espaço para salvar todas as crianças do mundo e que os seus atores – advogados, juízes, ministério público, etc. – eram mecanizados para seguir a lei – leia essa muito fraca, na minha perspetiva – e não para momentos heróicos. Eu queria chamar a atenção sobre o problema. E aquela foi a minha forma de o fazer. “A Morte é uma Serial Killer” começou a ser escrito na altura em que o meu fascínio pelo mundo da criminologia já me obrigava a comprar e ler tudo quanto era livros sobre o tema. Continuo a estudar, tanto porque é uma profissão que está em aberto, como porque quero escrever mais a respeito.

9 – Qual o conselho que dá aos jovens portugueses que lutam todos os dias para verem os seus trabalhos publicados?
Escrever muito. Todos os dias, se possível. Ler clássicos, modas literárias que nem são tão boas assim, autores desconhecidos, todos os géneros e subgéneros. É fundamental para aprender, para ter consciência do que pode funcionar ou não. Ver filmes, documentários, ouvir música. Viver. Porque só vivendo conseguimos passar para o papel alguma coisa que valha a pena. Não desesperar quando uma porta se fecha. Se o sonho é escrever e ser publicado, continuem a escrever, a melhorar os erros e a limar arestas. Algures no mundo, uma editora irá olhar para vocês.

10 – E agora a pergunta da praxe: o que acha do blogue Mil estrelas no colo?
Conheci-o ontem. Visualmente agradável, cheio de dicas literárias e opiniões sobre os mais variados livros. É importante a existência deste tipo de blogs. Os leitores portugueses partilham pouco sobre o que estão a ler. Como observadora que sou, raramente escuto em conversas de café que livro X é bom ou que o livro Y não correspondeu às expectativas. Portanto, é sempre muito gratificante encontrar espaços – ainda que na internet – onde o assunto é debatido com tanto apreço. Parabéns à autora.

 

Para finalizar umas perguntas rápidas:

Um livro: “Lolita” – Vladimir Nabokov

Um autor: Carlos Ruiz Zafón

Um actor ou actriz: Anthony Hopkins

Um filme: “La piel que habito” – Pedro Almodóvar

Um dia especial: Quando o Distúrbio foi lançado, apesar de não estar presente.

Um desejo: Continuar a escrever mais e melhor.»